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  • NA PONTA DA AGULHA

Feito à Mão: Tempo Mínimo de Delia Fischer

Por Janaina Fellini, musicista, jornalista, terapeuta, sagitariana, água, calor e longas conversas em noites de vida e sonho. Meu trabalho é atravessar realidades. E delírios.


Esta leitura não vai demorar. Porém Cronos vai passar na mesma medida em que durar o texto. E não terá volta nem negociação. Faça, em tempo, sua escolha.


SOU ALGO QUE JÁ SE MODIFICOU

Feito à mão inspirada no álbum Tempo Mínimo, de Delia Fischer


Na primeira volta, caminhei contornando o lago que preenche o centro da pista do parque Bacacheri, em Curitiba. Passei os olhos pela senhora que descansava com os braços abertos no banco, debaixo da sombra. Notei suas roupas estampadas em cor de rosa e marrom, as sobrancelhas tatuadas e o cabelo vermelho. Enquanto ouvia pela primeira vez o álbum Tempo Mínimo, me perguntei em silêncio se a senhora, ali mesmo descansada naquele banco, estaria em paz com Cronos.


Alguns passos à frente, senti as gotículas de chuva que caíam do céu meio cinza meio azul, naquele fim de tarde. Meus olhos arderam pela luz refletida quando olhei para cima, confirmando a chuva de verão. E me perguntei, mais uma vez em silêncio: o que é o tempo?


Na segunda volta, caminhando pelo mesmo lugar, percebi que a senhora já não estava mais ali. À sombra, o banco agora descansava vazio. Chocada com a falta tão imediata daquela imagem relaxada e colorida, respondi a mim mesma, também em silêncio: tempo é um único instante em que tudo acontece. É o que passa. É dia, noite, dia. É o que eu, aos 35 anos, quero desesperadamente segurar.


Conversei com o músico e professor de mitologia grega Guilhermoso Wild, que me contou que os gregos antigos tinham duas maneiras de perceber o tempo: uma é o tempo Cronos e a outra, o tempo Kairós. Cronos é a nossa percepção, por exemplo, da linha do tempo como passado, presente e futuro. O conceito de Cronos aparece na nossa vida prática quando usamos o cronograma, a cronologia, o cronômetro. Já Kairós é o aqui e agora, o momento mágico, a plenitude. Refere-se à riqueza do tempo presente.



A mitologia de Cronos, o Titã filho do céu (Urano) e da terra (Gaia), por Guilhermoso Wild:


A mitologia de Cronos, o Titã filho do céu (Urano) e da terra (Gaia), por Guilhermoso Wild

//ouça aqui//



A mitologia de Kairós (o tempo presente), o Deus rápido que muitas vezes aparecia nu, filho de Zeus com Tique:


A mitologia de Kairós 1

//ouça aqui//


A mitologia de Kairós 2

//ouça aqui//



Na manhã quente e ainda preguiçosa de fim de férias, eu toda emaranhada na batalha diária e alternada de ser Cronos e sonhar estar em Kairós, dei de cara com a história da francesa Jeanne Calment, recorde mundial de longevidade. Ela viu a torre Eiffel sendo erguida, conheceu Van Gogh, andou de bicicleta até os 100 anos e parou de fumar e tomar vinho doce aos 121, um ano antes de morrer. Depois de ir e vir me imaginando no corpo e na existência desta senhora, perguntei para a dona Liamir Santos Hauer, de 96 anos, o que é o tempo para ela, que ainda dança nas festas e saraus que frequenta e não dispensa uma boa dose de uísque: “vejo o tempo como uma realidade muito presente. Quanto mais ele passa, mais fica evidente como realidade. Ao sentirmos que teremos menos tempo para viver, também sentimos uma espécie de perda. Mas às vezes me espanto ao lembrar que já tenho 96 anos! E penso: como vivi até aqui e qual o sentido de estar aqui”?


E lendo justamente essa resposta, voltei no tempo. Era dia 2 de fevereiro, eu estava em São Paulo, na casa da minha amiga Luciana Branco e decidimos fazer um almoço com ritual para Iemanjá.  Nesse dia, conversei com a AnaMi, com quem já tinha encontrado algumas vezes no curso de meditação. Ana Michelle Soares tem 37 anos, é paliativista e escritora do livro “Enquanto eu Respirar – dançando com o tempo e com todas as possibilidades de estar viva até o último suspiro”. Criadora do perfil @paliativas no instagram, trabalha com o propósito de ressignificar o conceito de cuidados paliativos, e constrói através da sua própria história, um novo olhar sobre a finitude humana. Por onde a conexão nos atravessou durante o tempo em que estive com AnaMi, acessei a coragem mais genuína e plana da existência. Ao perguntar para ela sobre o tempo, a resposta chegou em linha reta e sem ponto de interrogação:


“Não sei quanto tempo cabe nesse tempo final. Mas sei o infinito que pode caber no agora do meu tempo. E pode ser leve ou intenso. Claro ou escuro. Sorrindo ou calado. Pra cada tempo um tempo de ser. Pra cada ser, um tempo de estar. Do tempo, só não quero aquele que se desperdiça”.


Na dificuldade de colocar um ponto final nesta narrativa, que para Cronos já estaria atrasada, mas em Kairós, estaria apenas suportando mais um pouquinho de estado de presença, resolvi tirar uma carta da caixeta de palavras Fika Conversas. Um tipo de baralho feito para puxar conversa sobre palavras utilizadas na contemporaneidade e conectar pessoas e ideias através do jogo. A inscrição na caixa convida: vamos jogar conversa dentro?


É claro e inevitável, a carta que tirei foi “Zeitgeist  – O Espírito do Tempo”.




Tipiti 1

Feito à Mão

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Tipiti 2

Feito à Mão

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Tipiti 3

Feito à Mão

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Inundada por essa breve viagem em busca de entender o tempo, agradeço a Delia Fischer, a quem não conheço pessoalmente, e que inspirou essa trajetória feita à mão. A arte é nosso tempo sagrado, atravessador de mundos, linguagens, vontades e sonhos. E nos convido a conhecer mais, ouvir mais, conectar mais. Fazer as pazes com Cronos, passar mais tempo com Kairós. “Não consigo entrar na curva de um tempo, existir sobre o que passou. Sou algo que já se modificou.” (Da canção Orgia, faixa 2 do álbum Tempo Mínimo, de Delia Fischer)


TÁ COM TEMPO?

Então lê esse texto que o professor de física Tiago Debarba escreveu especialmente para o Feito à Mão


A definição do tempo é baseada sempre na sua própria medida, relativa a um período, como os segundos, os anos e suas estações. Mas o que podemos dizer sobre o passado, presente e futuro? Nossa percepção do passado está relacionado a quantidade de informação que o universo gravou na natureza, durante sua evolução. Assim conseguimos medir seus efeitos e as leis da física nos permitem definir a direção da seta do tempo. Percebe-se portanto que relativo ao passado “o tempo não é uma ilusão, percebemos os efeitos do tempo a todo momento” (Jenna Ismael, Universidade do Arizona, 2016). Mas como podemos caracterizar o tempo como uma característica da natureza a partir da  nossa percepção? Será que o futuro permanece uma ilusão relativa a definição de uma seta do tempo, não limitada ao presente? Potencialmente o que conhecemos por tempo não caracteriza completamente o tempo que queremos  descrever.


Professor de física Tiago Debarba



FEITO À MÃO INDICA

Álbum Tempo Mínimo, de Delia Fischer: Spotfy de Delia Fischer


Curso de Mitologia Grega com Guilhermoso Wild: @guilhermosowild no Instagram


Caixeta de palavras Fika Conversas: https://fikaconversas.com.br/


Livro Enquanto eu Respirar, de Ana Michelle Soares:




FEITO À MÃO – Ficha Técnica: Os textos derivam inspirações a partir de trabalhos musicais. Não necessariamente expressam o pensamento ou a linha traçada pelo artista. Estas informações, você pode acessar ouvindo a entrevista do programa Na Ponta da Agulha, com idealização e apresentação de Jorge Lz. Canais Na Ponta da Agulha:

http://www.radiograviola.com/ Instagram @ProgramaNaPontaDaAgulha

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